› Repórter: Hoje, a nosso colégio recebe com grande alegria... Aurélio Agostinho. Vamos recebê-lo com uma forte salva de palmas.
O repórter e Agostinho se cumprimentam. Agostinho cumprimenta a platéia.
› Todos cantam: Agostinho, Agostinho, Agostinho,
Obrigado por ter vindo! Bis
› Repórter: Agostinho, por favor, sente-se e sinta-se bem entre nós. Como é de costume neste nosso país, vamos fazer a sua
apresentação. Você poderá interferir, caso sinta necessidade de completar ou até mesmo corrigir alguma coisa. Queremos dizer somente a verdade
a seu respeito. E para isto, vamos nos apoiar naquele livro o “best seller” de todos os tempos, chamado “As confissões”.
Vamos atrasar os nossos relógios, corrigir o nosso calendário e situar-nos no ano 354. Podemos também fazer o nosso pensamento voar para o Norte da África,
a uma cidade chamada Tagaste, dominada pelo poderoso império romano. Aí, no dia 13 de Novembro, nasceu Aurélio Agostinho.
Mas... seria bom que o mesmo Agostinho nos falasse um pouco sobre os seus pais. Quem melhor que os próprios filhos pode apresentar os pais?
› Agostinho: Meu pai se chamava Patrício e minha mãe se chamava Mônica. Tinha também um irmão que se chamava Navígio e uma irmã chamada
Perpétua. Meu pai era funcionário municipal. Ele era encarregado da arrecadação de impostos. Minha mãe cuidava da família, da casa, do nosso bem estar.
Minha mãe era uma católica muito fervorosa, mas meu pai... não era nem cristão! Porém isso não era problema entre eles, pois viviam em
grande harmonia. (Confissões 9,11.28).
Meu pai era um marido bastante carinhoso, ainda que não lhe faltassem as crises de ira. (Confissões, 9,9.19) Minha mãe dava o seu jeito para conversar com
ele sobre Deus e por fim., meu pai foi batizado.
Minha mãe era uma mulher de inteligência natural, pedagoga, conhecedora dos problemas que podem afetar a vida dos jovens. Ela soube me acompanhar com a palavra e o silêncio.
A minha mãe era mãe, mãe. Destas que pegam no pé de verdade! Ela era como a minha sombra! Não saía do meu lado e quando eu escapava, ela dava mil voltas
até chegar onde eu estava. Seguia-me por terra e por mar. (Confissões 6,1.1). Preocupava-se tanto pelo meu crescimento físico como pelo meu crescimento na fé.
› Repórter: Vocês sabem porque ela se preocupava tanto com a saúde dele? Porque durante a sua infância e ao longo da sua vida, ele não tinha a saúde de um
atleta. De pequeno ele sofreu uma obstrução intestinal (nó nas tripas) e esteve em transe de morte. (Confissões 1,11.17) A fragilidade física de Agostinho ou
esses misteriosos motivos pelos quais uma mãe pode ver com olhos de predileção a um filho tornam a relação de Mônica e de Agostinho muito especial.
› Agostinho: Eu confesso a vocês que quando minha mãe faleceu, aos seus 56 anos de idade, eu sofri tremendamente. Sentia uma forte dor interior provocada pelo corte repentino daquela
convivência tão bonita. (Confissões 9, 12.30) Ao ver-me abandonado por aquele grande consolo que a sua pessoa me proporcionava, sentia a minha alma ferida e a minha vida quase
despedaçada. Esta vida que havia chegado a ser uma só coisa com a vida dela. (Confissões 9, 12.30).
PAUSA...
Entram em cena o repórter e Agostinho.
› Repórter: Agostinho, nós ouvimos falar que você foi bem danado na sua juventude!... que você aprontava umas boas!... alguns dos que estamos aqui já
leram alguma coisa sobre a sua juventude nas suas confissões. Porém, já que temos o privilégio de tê-lo aqui, seria bom que você mesmo
compartilhasse a sua experiência conosco.
› Agostinho: Realmente! A minha adolescência e juventude foram muito convulsionadas. Eu adorava os jogos e os espetáculos que a cidade de Cartago oferecia.
Tudo aquilo me fascinava. Aos 11 ou 12 anos eu tive que romper com o meu aconchegante ambiente familiar e ir para Madaura para seguir os meus estudos. Depois fui de Madaura para Cartago.
› Repórter: É bom saber que Cartago era a segunda cidade da África. Era um grande centro comercial e oferecia estudos universitários.
Além disso era uma cidade portuária o que favorecia um grande movimento de gente que chegava e partia. E aí se dava todo tipo de espetáculo.
› Um jovem sentado no meio dos assistentes pergunta: Agostinho, se Cartago era uma cidade tão perigosa para a juventude, porque os seus pais lhe enviaram para lá?
› Agostinho: A grande preocupação do meu pai, era fazer de mim um homem brilhante. As possibilidades de estudo em Tagaste, minha cidade, eram muito limitadas.
Cartago era a cidade que oferecia melhores possibilidades para continuar os estudos. Por outro lado, ela acreditava que os estudos me levariam a Deus, por isso apoiou a minha
ida ao “forno das paixões” - Cartago.
Porém ao terminar os meus estudos em Madaura, aos meus 16 anos, por falta de recursos econômicos, eu tive que ficar um ano em casa e foi aí que as minhas
paixões tomaram conta de mim. Neste ano eu me entreguei a todo tipo de paixões.
› Outro jovem: Que papel jogaram os seus amigos nesta fase da sua vida?
› Agostinho: Oh!... amizade descaradamente inimiga! Vontade de prejudicar os demais para divertir-me, vontade de fazer mal aos outros sem beneficiar-me pessoalmente...
Quando eu não tinha feito nada que me igualava aos meus amigos mais sem vergonhas, eu inventava coisas que não tinha feito só para não aparecer mais ingênuo,
mais puro. Não queira sentir vergonha de não ser um sem vergonha. Na minha ignorância, eu ia caindo cada vez mais num precipício. Era tal a minha cegueira que o fato
de ser menos libertino que os companheiros da minha idade, era para mim motivo de humilhação.
› Outro jovem: E como os seus pais reagiam diante desta vida que você levava.
› Agostinho: Meu pai quando percebeu no meu corpo os sinais da puberdade e de uma adolescência tão inquieta, começou a sonhar com os netos que eu lhe podia dar.
Ele não estava nem aí... Minha mãe por outro lado, morria de medo que eu me perdesse, me dava conselhos, indicava caminhos, mas para mim era humilhante fazer
caso dos conselhos de uma mulher.
Vejo que naquela minha loucura meus pais não souberam unir o rigor com a bondade e isto contribuiu para dar mais asas a todos os meus caprichos. (Confissões, 2,3.8).
› Repórter: Por fim você foi ou não foi a Cartago?
› Agostinho: Fui sim.
› Repórter: E o que aconteceu por lá?
› Agostinho: Tenho alguma coisa escrita no meu diário, sobre a minha vida em Cartago. Quer ler? (Oferece o texto a uma jovem para que o leia).
› Repórter: Cheguei a Cartago, e ao meu redor ferviam os amores impuros. Naquela época eu ainda não amava, mas desejava amar e
estava ressentido comigo mesmo por não sentir verdadeira necessidade de amar. Odiava a segurança e me aborrecia andar por um caminho que não me
oferecesse perigos.
Estava vazio! E, ao mesmo tempo em que rejeitava o fogo das paixões, mergulhava cada vez mais nelas. Sentia também um grande orgulho porque me consideravam elegante
e homem do mundo.
Sentia-me fortemente atraído pelas representações teatrais, cheias de cenas que eram um espelho das minhas próprias misérias.
Amar e ser amado era para mim uma saborosa ocupação, sobretudo se conseguia desfrutar do corpo de uma pessoa amada. (Conf. 3,1.1) Por fim caí
nas redes do amor. Comecei a conviver com uma mulher e lhe fui fiel.(Conf.4,2.2) Esta união era considerada legal dentro das leis do Império Romano.
Tivemos um filho durante o meu primeiro ano de estudos em Cartago e lhe demos o nome de Adeodato, que quer dizer: dado por Deus. Ela era católica. Convivi
com ela durante 14 anos, sendo-lhe muito fiel.
Nesta união, tive a experiência pessoal de ver, no meu próprio caso, a distância que existe entre o amor conjugal orientado a formar
família e o amor puramente sensual, no qual os filhos nascem contra o desejo dos pais, ainda que uma vez nascidos sejam assumidos e os pais se sintam
obrigados a querê-los (Conf. 4,2.2).
Não pude casar-me com ela porque a lei romana proibia o casamento entre pessoas de diferente classe social. As pessoas mais próximas a mim e,
principalmente minha mãe, viviam insistindo para que eu buscasse uma mulher com quem pudesse casar-me. Minha mãe foi a que deu, basicamente,
todos os passos para comprometer-me em casamento. Esperava que, uma vez casado, eu me purificasse com a água do batismo da salvação”.
Tive que deixar a minha fiel companheira, a mãe do meu filho Adeodato, quando me comprometeram em casamento com uma menina, ainda muito criança
com a qual eu poderia me casar somente depois de dois anos pois ainda não tinha a idade exigida para o casamento. (Conf. 6,15.25).
Quando nos obrigaram a separar-nos, com vistas ao casamento com “a prometida”, ela foi para a África, depois de ter feito a promessa de
nunca mais se entregar a outro homem. Eu não fui capaz de imitá-la e busquei outra mulher, somente para saciar a minha paixão desenfreada.
Mas essa nova relação não curava a profunda ferida deixada pela separação da mulher que eu, realmente, amava.
Ela partiu deixando comigo o nosso filho Adeodato (Cf. Conf. VI, 15.25).
› Um jovem: Agostinho, o que aconteceu com os seus estudos?
› Agostinho: Ah!... Nada disso me impediu ser o primeiro da turma. Além do mais, eu tinha uma consciência crítica bem
desenvolvida, não me deixava enrolar por qualquer ideologia. Era amante das modas literárias. Devorava os escritores clássicos latinos, como:
Virgilio, Cícero, Salustio, Horacio, Terencio, Quintiliano.
Aos 19 anos, senti pela primeira vez, o amor à sabedoria e estava resolvido, uma vez que a encontrasse, a abandonar todas as esperanças ilusórias
e as falsas loucuras das paixões. Mas cheguei aos trinta anos ainda atolado no lodo... e repetia continuamente “amanhã encontrarei a sabedoria...
ela se manifestará a mim com clareza e eu a possuirei!...”
Vida Profissional
› Repórter: Agostinho se formou em Direito e retórica – a arte de falar bem e com eloqüência – mas se
sobressaiu e sobressai até os nossos dias , sobretudo, como um grande pensador.
› Repórter: Agostinho, parece que você trabalhou como professor. Gostaríamos que você nos contasse algo de sua
experiência em Cartago e Roma.
› Agostinho: A juventude de Cartago era terrível. Eu a conhecia, pela minha própria experiência. Durante certo tempo eu
freqüentei a roda dos “demolidores”, com os quais participava de noitadas de tumultos pelas ruas e tabernas da cidade.
Trabalhei em Cartago, como professor, durante 09 anos, quer dizer: dos 19 aos 28. Confesso-lhes que não me sai bem como professor. Os alunos se comportavam
muito mal durante as aulas, eram violentos, perturbadores, desobedientes... e essa maneira de comportar-se estava respaldada pela tradição.
Eu tive que suportar como professor um tipo de comportamento que nunca foi o meu como estudante (cf. 5,8.14).
Por fim me decidi deixar Cartago e ir a Roma como professor de oratória. Alguns amigos tinham comentado comigo que os alunos de Roma não eram
indisciplinados como os de Cartago. Fui para lá animado e, realmente, me encontrei com estudantes mais pacíficos. As regras de disciplina não
lhes permitiam nenhum tipo de baderna na sala de aula. Porém, dei de cara com outro tipo de problema... os estudantes se uniam e trocavam de professor em massa,
não cumprindo o compromisso assumido de pagar ao professor. Confesso que comecei a sentir ódio por eles pelo prejuízo que me causavam (Cf. V, 12.22).
Mais tarde fui para Milão.
De Milão escreveram ao prefeito de Roma para que lhes enviasse um professor de oratória. Eu apresentei a minha solicitação ao prefeito e depois
de passar por uns testes de dicção sobre o tema proposto, me enviaram a Milão. Ali me encontrei com o Bispo Ambrósio, homem, sábio,
prudente e justo; célebre e popular orador, um dos melhores de Milão.
› Um jovem: Agostinho, de acordo com o que você nos vai contando, a sua vida foi bem depravada...por outro lado, a sua vida vem empolgando
muita gente... como se deu essa virada?
› Agostinho: É... isso não aconteceu de repente...
Eu sempre fui inquieto, tinha sede da verdade e da beleza e apesar de toda a minha depravação eu escutava a minha mãe, tinha bons amigos, fui fiel
à mulher a quem eu, realmente, amei. Dedicava-me à leitura, à boa leitura e assim, a leitura de um bom livro me abria caminho para outro.
Havia sempre ouvido dos lábios de minha mãe o nome de Jesus e chegou o momento em que eu buscava ardentemente algum livro que me falasse sobre Jesus.
Li a Bíblia, mas não gostei... naquele tempo o meu coração ainda estava dominado pelo orgulho e a Palavra de Deus só germina no
coração das pessoas simples e humildes.
Dentro de mim sempre houve uma força que não me deixava parar, acomodar-me. Eu queria conhecer mais e mais e chegar à Verdade que fosse capaz de
preencher os vazios do meu mundo interior. Por isso corria atrás dos mestres como um mendigo faminto de doutrinas verdadeiras. Quando apontava algum mestre,
sobretudo se era eloqüente nas palavras, detrás dele estava eu... por isso busquei os maniqueus, os donatistas com curiosidade, e... escutei-os com
atenção; me enveredei pela astrologia, horóscopo, cai na descrença... O meu caminho foi longo e cheio de tropeços!... de buscas
incansáveis e de muita frustração.
Corria atrás dos que pareciam sábios com a esperança de que eles esclarecessem as minhas dúvidas e dessem uma resposta acertada às
minhas perguntas. Com o tempo caía na decepção porque as palavras deles eram, na maioria das vezes, pura falsidade.
› Repórter: Agostinho, parece que Deus andava guiando os seus passos e aproveitou aquela boa oportunidade de trabalho em Milão
para agarrar a você de uma vez por todas, não?
› Agostinho: Com certeza! E o Bispo Ambrósio foi a isca... para mim que estava faminto da Verdade, do amor verdadeiro, da felicidade.
Quando ele pregava lá estava eu... ficava encantado com ele. Considerava-o um homem realizado. Eu me sentia mais atraído pela sua personalidade, pela
sua sabedoria que pela sua doutrina.
Ele ignorava as minhas tempestades e o risco que eu corria de cair no abismo. Eu não conseguia fazer-lhe as perguntas que eu queria e desejaria porque estava
sempre rodeado de pessoas que a ele iam com os seus problemas. O pouco tempo que lhe sobrava se ocupava com leitura, descanso e alimentação.
Era fácil chegar ao lugar onde ele estava pois não havia controle na porta e não era necessário pedir audiência. Quantas vezes
ficamos contemplando este grande homem durante o tempo que se dedicava à leitura, ao silêncio. Eu necessitava encontrar-me com ele com calma,
para abrir o meu coração, falar sobre as minhas angústias...
› Um jovem: Agostinho, faz tempo que você não toca no nome de seu pai e de sua mãe. O que acontecia com eles?
› Agostinho: Ah!.. nessa época, meu pai já tinha falecido. Ele faleceu em 372. Minha mãe foi atrás de mim a Milão,
enfrentando uma travessia do mar mediterrâneo bem perigosa. Durante esse tipo de viagem, normalmente, são os marinheiros os que devem encorajar os passageiros,
mas nessa foi a minha mãe a que animou a todos. (Conf.6,1.1).
Vivendo em Milão, minha mãe começou a estimar o bispo Ambrósio quando percebeu que ele me estava atraindo para o bom caminho. Ela o estimava
sobretudo pela minha salvação e ele a respeitava pela vida religiosa que ela levava, tão dedicada às boas obras e aos serviços da Igreja.
Muitas vezes, ao encontrar-me, ele a elogiava e me dava os parabéns pela mãe que eu tinha.
Ele me acolhia paternalmente e se interessava pela minha vida e atividades. Aos domingos, minha mãe e eu íamos juntos ouvir a sua pregação.
E assim, pouco a pouco, fui perdendo a minha arrogância. Eu não podia deixar de aceitar tudo o que o Bispo Ambrósio dizia, ainda que eu não
estivesse certo de que as suas palavras fossem verdadeiras. Como me tinha enganado tantas vezes correndo atrás de mestres, aparentemente, sábios eu tinha
medo de ser enganado mais uma vez, pondo toda a minha confiança em Ambrósio . Sentia-me como aqueles que, experimentando um médico mau, acabam tendo
medo de acreditar num médico bom.
› Um jovem: Agostinho, ouvi falar que você formou um grupo de amigos para estudar juntos, buscar juntos a Verdade...
› Agostinho: É verdade. Com minha mãe, meu filho Adeodato e um grupo de amigos, entre eles Alípio e Nebrídio, me retirei
para uma casa de campo perto de Milão, ao lado dos Alpes. A chácara chamava-se Casiciaco. Isso se deu no ano 386. Alípio, Nebridio e eu éramos
como três famintos que desabafam entre si a própria miséria e esperam de Deus “o alimento” no tempo oportuno. Íamos para a frente e
para trás: suspirávamos pela sabedoria e verdade e nos atolávamos no lodo das nossas paixões. Depois voltávamos a gemer e dizíamos:
“até quando?” “até quando?”... amanhã!... amanhã!... procurávamos a felicidade e ao mesmo tempo fugíamos dela!
Formávamos este grupo, pessoas que já estavam meio tocadas por Jesus Cristo, mas que ainda resistiam entregar-se de uma vez ao seu amor. Éramos um grupo de
amigos unidos em comunidade na busca de Deus. Partilhávamos tudo: os nossos bens, o trabalho no campo, o estudo e pouco a pouco a oração.
A minha mãe fazia as vezes de mãe do grupo, estava atenta a todas as nossas necessidades, ao mesmo tempo que compartilhava com todos a sua experiência de
fé. Ela, na sua simplicidade, ia na frente de todos nós, os sábios.
Aprendi a ler e a gostar das Sagradas Escrituras e a leitura das epístolas de São Paulo foi fundamental para dar a arrancada final naquele processo de quero
não quero, vou não vou.
› Repórter: Agostinho, quem era Simpliciano?
› Agostinho: Obrigado por você ter-me lembrado deste grande homem que Deus colocou no meu caminho. Simpliciano era, podemos dizer, o pai espiritual
de Ambrósio. Eu precisava conversar, desfazer aquela quantidade sem fim de nós que eu tinha na cabeça e libertar o meu espírito de todas as armadilhas
da minha carne. Simpliciano foi a pessoa certa, na hora certa. Era um senhor idoso, de fé comprovada e que podia me propor o modo mais adequado de seguir os caminhos de Deus,
naquela situação em que eu me encontrava. E assim foi.
› Um jovem: Agostinho, conte logo o desfecho de toda esta luta que se travava dentro de você...
› Agostinho: Esperem um pouco. Vou aí e já volto:
A Conversão de Santo Agostinho
› Encenando: Entram Agostinho e Alípio muito angustiados.
› Agostinho: Alípio o que é que nos aflige tanto? O que significam estas palavras que acabamos de ouvir?
› Uma voz: “Erguem-se os ignorantes e tomam de assalto o reino do céu”
› Agostinho: E nós, Alípio? Com todo o nosso saber nos debatemos na carne e no sangue! Será que temos vergonha de segui-los porque eles
descobriram o caminho antes que nós e não sentimos vergonha de não segui-los?
Agostinho se afasta muito agitado e Alípio fica olhando para ele com cara de espanto. Agostinho busca um lugar (de preferência um jardim) e se senta debaixo de uma figueira.
Alípio o segue passo a passo. Os dois se sentam. Agostinho está desesperado... faz gestos, puxa os cabelos, bate na testa, aperta os joelhos entre os dedos entrelaçados,
rola no chão... e vai dizendo coisas, por exemplo: porquê, Senhor! porquê? Porquê outros podem e eu não, por quê?...Eu tenho que dar conta...
Alípio permanece aí sem saber o que fazer. Ele também está em crise, mas a demonstra com mais calma...
(Esta cena será a representação de uma espécie de delírio...)
Se houver possibilidade de jogar luz e sombra seria bom...
Aparecem em cena:
› A vaidade: Agostinho, você vai nos abandonar? (gargalhadas....)
› Mulheres: Nunca mais estaremos contigo!...você pensa que vai agüentar? duvido? (gargalhadas...)
› Jogos: quantas chances você vai perder?.... (gargalhadas...)
› Alguns jovens: vai virar carola mesmo!... (gargalhadas...)
À medida que a tentação vai saindo, vão entrando outras pessoas, que o animam a seguir, a levantar-se:
Entra uma jovem vestida com túnica branca representando a harmonia, a pureza, a felicidade. Com um gesto sereno, alegre estende
as mãos a Agostinho, convidando-o a levantar-se da angústia, do fogo das paixões. Entram e passeiam pelo jardim,
crianças, jovens, adultos de todas as idades. Todos infundindo paz, alegria e vão dizendo com muita suavidade a Agostinho:
› Primeira voz: Agostinho, fecha os ouvidos às tentações que te prendem à terra...
Elas te oferecem prazeres que vão contra a lei do Senhor teu Deus!...
› Segunda voz: Agostinho, atira-te sem reservas na bondade de Deus e ele te receberá e te curará!...
› Terceira voz: Agostinho, se outros puderam abandonar os jogos, as mulheres, e muitas outras coisas, porque você
não pode? Vamos, ânimo, meu irmão!
Alípio continua imóvel, ao lado de Agostinho, e aguardava em silêncio o desfecho daquela grande agitação de Agostinho!
Ficam só os dois no palco.
As lágrimas começam a saltar dos olhos de Agostinho que se levanta e se distancia de Alípio... chora amargamente... soluça...
e vai falando: até quando, Senhor! Até quando? Até quando seguirás irritado comigo?... Por quanto tempo direi ainda:....
amanhã, amanhã! Porque não agora!....
De repente se escuta uma voz vinda de fora, voz de menino, menina: Toma e lê!... Toma e lê!.... Toma e lê!.... Toma e lê!....
Agostinho levanta o rosto, começa a enxugar as lágrimas e presta atenção para ver de onde vem a voz...
› Agostinho: serão crianças brincando? Será uma cantiga de roda?
Agostinho vai se levantando e corre para onde está Alípio pois aí havia deixado o livro das epístolas de São Paulo.
Pega o livro o abre e começa a ler em silêncio...
(Enquanto eles representam, uma voz lê os versículos em voz alta, com calma, muita expressão e suavidade)
“Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo
e não procureis satisfazer os desejos da carne”. Romanos 13,13
Agostinho já tranqüilo e sorridente passa o livro a Alípio que avança um pouco mais na leitura: “Acolhei o fraco na
fé”. Rom. 14,1 Alípio lê e mostra o versículo a Agostinho. De maneira diferente os dois recebem a graça da
conversão e vão ao encontro de Mônica para lhe contar o sucedido. (eles saem do palco e voltam conversando com Mônica que
os abraça cheia de júbilo.)
› Todos cantam: Tarde te amei, beleza infinita!...